Sobre coisas que eu não queria dizer

Sobre coisas que eu não queria dizer
Não sei quantas vezes evitei e adiei falar sobre esse assunto, sei que foram várias. Entre os motivos, por, principalmente, saber que uma parte de mim seria exposta de uma maneira inevitável. Assim como já pensei, várias vezes, em discorrer sobre isso...

Enquanto as palavras surgiam em minha mente, um diálogo rolava quente atrás de mim. Havia me retirado da conversa, incomodada de mais para dizer qualquer coisa. Meu incomodo não vinha das palavras infelizes que a garota insistia em repetir, mas de uma auto análise crítica e inegável que martelava intensamente em minha mente. Eu já fui assim! Insistia meu pensamento de forma vergonhosa e precisa. Tive nojo. Tive nojo da menina, mas tive mais nojo de mim mesma. Como eu ousei?

Não sei dizer como começou a discussão, mas em algum momento a garota estava criticando de forma concisa o sistemas de cotas para os negros, o sistema do bolsa família, a abordagem ao racismo e à violência sexual, principalmente, feminina, a abordagem à homofobia, a intolerância religiosa... No primeiro momento eu pensei em argumentar, no momento seguinte eu não conseguia mais ouvi-la. Enquanto ela falava eu fazia cálculos temporais complexos em minha mente, analisando o que levava-a falar assim. Mas não foi a analise dela que me chocou, foi a minha própria.

Apesar de minhas origens eu mantinha o mesmo discurso sem fundamento, impreciso e, sinceramente, irritante que a garota. Me lembro dos meus quinze anos quando achava um absurdo o sistema de cotas. Não concordava porque o negro teria exclusividade sobre um branco se ambos podiam estudar e mostrar sua capacidade. Ao ouvi-la, me vi falando: "eu não sou racista, até tenho amigos negros". Defendia a "igualdade" de competição. Me lembro, aos dezessete que eu não gostava (e era não gostar mesmo) de homossexuais. Achava que todos eles iriam para o 'inferno' e pior, que mereciam isso, exceto aqueles que eram da minha família e me davam presentes de vez em quando, esses "iam para o céu" porque eram bons. Me lembro de defender a PL122 quando ela saiu... (preciso de um minuto de silêncio pela minha moral). Me lembro, ouvindo a mim mesma claramente nas palavras da menina, de chamar os beneficiados do bolsa família de "vagabundos" e "preguiçosos". De criticar o auxílio reclusão e de achar que, se uma mulher saísse à rua com uma roupa curta ou decotada ela "estava pedindo" para ser violentada. Me lembro de achar que se uma mulher apanhasse do marido ou do namorado e continuasse com ele, é porque merecia aquilo.

Enquanto ouvia todas essas afirmações eu pensava em quantas vezes falei isso para alguém. Em quantas vezes eu escrevi sobre algum desses assuntos nas redes sociais. Não me lembro de todas as pessoas que me ouviram/leram, mas devo um pedido de desculpas a todas elas. Devo um pedido de desculpas, principalmente porque eu, muitas vezes, me achava a 'fodona' que deixava meu interlocutor em silêncio com meus "argumentos". Que vergonha! Eles só se calaram por preguiça de conversar com a pessoa ignorante e retardada que eu era.

Eu mudei, sim. Eu me informei. Eu pesquisei. Eu estava errada o tempo todo. Meu eu de hoje, embora continue com muitos erros e opiniões questionáveis, não aguentaria cinco minutos de conversa com meu eu de uns cinco anos atrás. Assim como eu não aguentei manter a conversa com a menina que insistia em vomitar sua opinião sobre tudo, sem ninguém ao menos estar pedindo.

Às vezes é difícil confrontar a nós mesmos. É o confronto mais doloroso que existe. Quebrar conceitos, mudar de opiniões, admitir que estava errado. Ainda estou longe de me olhar no espelho e sentir orgulho, muito longe disso, mas já me sinto melhor em desatar os nós e quebrar os paradigmas que me mantiam na redoma de 'não se pode mudar'. Mudar é preciso e tem que ser constante.

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